S. gostava de sair na chuva, sabendo que iria se molhar.(Eu
sabia que eu iria começar um texto com chuva). Ela gostava de fazer isso
especialmente se estivesse acompanhada de alguém que também quisesse se molhar.
Porque ela gostava de ver os outros corpos fazendo movimentos na chuva como o
dela: livres, sem propósito, como se procurassem sentir muito mais que gotas d’água.
Às vezes
ela pensava: um dia eu vou me molhar na chuva com alguém. E esse alguém vai ser
pra sempre. Vai ser o meu “pra sempre”, não importe o quanto dure, vou levar
esse alguém pra junto da minha memória. Esse alguém não vai poder ter medo de
se molhar com ela. Não vai poder recusar. Nem hesitar entrar na chuva, na água
gelada. Vai ser um homem?Uma mulher? Não sei. Mas quero que esse alguém não
tenha medo. Porque se ele tiver medo, vou achar que a minha companhia não vai
ser o bastante para ele.
S. é
aquele tipo de pessoa que estava em todos os lugares, em todos os eventos. Se
pudesse iria a todos, ao mesmo tempo, sem se cansar. Se você quisesse encontrar
S. ela estaria em tudo quanto é canto, menos em sua própria casa. S. sonhava ,claro,
com seu cantinho, com sua casa, seu espaço. Mas ela também achava que o espaço
dela era a rua. Nada mais refrescante para alma do que abrir o portão de sua
casa e sentir seus pés na rua. No espaço de todos.
“Todos”
era uma palavra que S. gostava muito. Ao mesmo tempo ela achava uma palavra difícil.
Porque nunca era compatível com as outras. Era impossível conciliar todas as
outras palavras juntas com “todos”. Agradar a todos, não dava.
Quando era
criança S., era aconselhada a compartilhar seus brinquedos com todos. Era
advertida ao não dar atenção a todos que quisessem conversar com ela. Aprendeu
a lição muito bem. Só que hoje ela não entende porque ensinaram isso a ela, se
era impossível conciliar sua atenção (e o seu tempo) com todos.
Repetidas
vezes, mamãe falava pra mim: ajude o outro, faça com que os outros sejam
felizes, se você puder, dê apoio a uma pessoa querida, e ela vai te agradecer
com o maior sorriso do mundo. Quando S. aprendeu isso, ela nunca mais parou de
seguir os conselhos da mãe. Infinitas vezes recebeu o maior sorriso do mundo e
ficou com o maior sorriso do mundo dentro daquele calorzinho gostoso que ela
sentia quando ajudava alguém.
Um dia ela
percebeu que não pudia agradar a todos. Dentro de seu universo, todos eram
muito gratos a ela. Ninguém era tão companheira, amiga, fiel como ela era. Mas
quando percebeu que isso não era o bastante para ela, ela começou a pensar que
não valia a pena. Ela havia ajudado a todos, mas no fundo sentia que estava
deixando sua vida em segundo plano.
